O Movimento Pérola Negra foi homenageado na última segunda-feira (14), na Câmara de Vereadores de Candelária, em nome do casal Otacílio Gonçalves e Geralcinda Gonçalves. A homenagem se deve à passagem do dia da consciência negra, comemorado no país em 20 de novembro. Com data de nascimento incerta, a líder do movimento Pérola Negra, Vaneska Dias, esclareceu que o casal tem aproximadamente 101 de anos de vida e, tendo sido a Lei Áurea sancionada há 127 anos no Brasil, eles ainda vivenciaram tempos difíceis para a cultura negra. Vaneska lembrou a luta que os negros enfrentam diariamente com comportamentos já enraizados na sociedade, como dizer que quando a situação não está boa, ela está preta, ou que a inveja negra é a pior delas e que o boi que assusta as crianças tem a cara preta. "Sobrevivemos crescendo e ouvindo que o gato que dá azar é preto, que quando a coisa está ruim, ela está preta. Que a lista dos que não prestam é negra. Sobrevivemos apesar de nossos cabelos, nossas roupas e nossas culturas estarem na moda sem a gente dentro. Sobrevivemos, apesar de crescermos ouvindo que o nosso cabelo é errado, que a cor da nossa pele é errada, que nosso nariz é errado. [...] E de tanto sobrevivermos, aprendemos a viver, contrariando todas as estatísticas e sendo felizes", destacou. Além disso, Vaneska pediu atenção para as leis federais n° 12.288, que institui do Estatuto da Igualdade Racial, a n° 12.519, que estabelece o dia de Zumbi e da Consciência Negra, e n° 10.639, que diz que os ensinos fundamental e médio, público e particular, têm obrigação de ensinar a cultura afro-brasileira. "Não queremos processo, queremos que todos aprendam um pouco da nossa cultura, porque somos feitos um do outro, não existe diferença, somente na cor, mas o sangue é o mesmo", esclareceu. Falou, também, sobre a noção da palavra Ubuntu, filosofia africana que trata da importância do relacionamento entre as pessoas, umas com as outras, podendo ser explicada com a frase "sou quem sou porque somos todos nós". "Segundo os hebreus, fomos feitos um do outro, ninguém é feliz sozinho. Ninguém brinca sozinho, ninguém nasce sozinho. Em outras palavras, gente precisa de gente para ser gente", destacou. Para o vereador Cristiano Becker, nada mais justa a homenagem ao casal Geralcinda e Otacílio por terem vivido na pele a dificuldade de romper barreiras apenas alguns anos após a sanção da Lei Áurea. Depois de contar uma história infantil, o vereador falou que os adultos devem adotar a inocência das crianças, que não distingue cores e raças, mas ensina a enxergar o mundo de outra forma. Lembrou, ainda, da importância da raça negra na formação da sociedade brasileira, com uma participação não somente de serventia, mas de ajuda na construção de riquezas e alertou que somente as políticas públicas de igualdade racial serão capazes de impulsionar o desenvolvimento da sociedade brasileira e acabar com o racismo. A vereadora Cristina Rohde, por sua vez, informou ao plenário que no próximo ano protocolará no legislativo um projeto para instituir em Candelária a Semana da Consciência Negra, que deverá ser desenvolvida, entre outras atividades, também em escolas, devido à importância de trabalhar com os alunos, desde o início da vida escolar, a importância da cultura negra. Pronunciaram-se, ainda, os vereadores Paulo Hoffmann, Maria de Lurdes Ellwanger, Celso Gehres e o prefeito em exercício, Rui Beise. Otacílio, Geralcinda e Vaneska receberam placas e flores como homenagem.